NÃO É DESIGN

Este ano, enquanto nos dirigíamos para uma reunião com um cliente, presenciei uma conversa que me alarmou: duas jovens designers, membros de minha equipe, comentavam como se arrependeram de haver optado pela profissão, citando exemplos de melhor remuneração de colegas que escolheram outras profissões. O primeiro ponto que me chamou a atenção foi a falta de idealismo e o pragmatismo dessas jovens, já dando como certo o fracasso de um projeto de vida profissional após apenas alguns anos de prática. Mas, pensando um pouco mais sobre o assunto, percebi o paradoxo desta situação: o design é hoje um dos temas mais destacados e reverenciados, por sua metodologia centrada no ser humano, por sua efetividade na solução de problemas, por sua alta potencialidade de agregação de valor em cadeias produtivas e pelas diversas notícias de casos que comprovam essa visão. Contudo, diversos outros sintomas denotam tendência contrária, como agências diminuindo seus quadros ou sendo fechadas, preços de serviços em queda no mercado, demandas de concorrência de projetos não remuneradas, motoristas da Uber exdesigners, dentre outros fatos alarmantes. Será que nossa atividade, da forma como atuamos hoje, está com seus dias contados, ou será que, como tantas outras, após as mudanças surgidas com a nova economia, sofrerá um deslocamento, será praticada de novas maneiras ou passará a ser incorporada dentro de outras cadeias de valor? É bem mais provável a segunda hipótese, mas quais serão esses novos possíveis rumos que a atividade de design seguirá? Difícil adivinhar qual será o futuro de nossa profissão e como ela será praticada, porém algumas hipóteses de caminhos que criem oportunidades de trabalho já e com perspectivas de futuro ouso arriscar:

  1. Empresas ligadas à área de comunicação passarão a incubar novas startups, gerindo seus ativos tangíveis e intangíveis, da mesma maneira como os fundos de investimentos apostam em novos negócios promissores. Poderemos nos valer de nossa capacidade criativa, de nosso pensamento estratégico e de nossa capacidade de investimento, tornando os acionistas com participação em resultados de empresas que demandam nossas expertises em vez de sermos remunerados pelos serviços prestados.
  2. A área de inovação é bem abrangente e está disseminada na maioria das empresas que têm a mesma necessidade de se reinventar diante dos desafios impostos pela nova economia. Designers são afeitos a esses ambientes como peixes são à água! Novas oportunidades de trabalho surgirão no mundo corporativo, onde qualidades como iniciativa, pensamento holístico, multidisciplinaridade, trabalho em equipe, intuição, capacidade de abstração, criatividade, dentre outras, são muito bem-vindas e valorizadas. Precisamos nos empoderar de nosso real valor para nos arriscarmos em novos ambientes corporativos, levando propostas ousadas com estratégias viáveis que tragam ganhos de resultados em negócios, atuando não apenas como funcionários ou prestadores de serviços, mas como stakeholders dentro de um ecossistema que se remunera com o resultado da operação.
  3. As startups são hoje uma realidade presente em diversas aceleradoras, em polos de empreendedorismo ou pulverizadas pelo mercado. Invariavelmente esses novos empreendimentos estarão presentes nos meios digitais, demandando a concepção de uma experiência de uso adequada. Muitos desses negócios se estruturam com base em uma célula mínima composta de um engenheiro de programação, um gestor de negócios e um designer de interface / experiência. Em muitos outros casos, a própria ideia original da startup é a otimização de um serviço levado a novos meios com o apoio da tecnologia.

Todos esses exemplos são campos férteis para a atuação de designers e partem de uma mesma lógica de raciocínio: se o mercado não me demanda serviços, por quê não criar e desenvolver meus próprios produtos e oferecê-los ao mercado? Nos três exemplos citados, há uma constante: seremos protagonistas de nossas ações ao invés de sermos passivos aguardando demandas. Estamos acompanhando profunda transformação no mercado de trabalho, mais perceptível em alguns segmentos do que em outros, mas que inexoravelmente acabará atingindo todos. Teremos de repensar nosso modelo de negócio para que possamos praticar aquilo que hoje é tido como um dos principais ativos para a geração de valor agregado: design!

andre poppovic

One thought on “NÃO É DESIGN

  1. Ricardo Feijo disse:

    Belo texto, parabéns André! Acredito que já estou no início do caminho desse futuro que você cita.
    “seremos protagonistas de nossas ações ao invés de sermos passivos aguardando demandas….Teremos de repensar nosso modelo de negócio para que possamos praticar aquilo que hoje é tido como um dos principais ativos para a geração de valor agregado: design!”
    Tenho empresa própria de design/comunicação e estamos constantemente revendo nosso modelo de negócios e criando as demandas, como protagonistas, justamente como você citou.

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