CUIDADO: SOMOS TODOS TAXISTAS!

As revoluções de maior impacto para a humanidade sempre acontecem, num primeiro momento, sem que as pessoas se deem conta de sua profundidade. Foi provavelmente assim com a descoberta do fogo, com a domesticação dos animais e com a entrada na era da agricultura. Foi assim na época das grandes navegações e nas duas fases da revolução industrial (primeiro com a máquina a vapor e depois com a eletricidade). Está sendo assim, novamente, com o que muitos estudiosos estão chamando de revolução da informação, um termo que abrange o uso de computadores, a globalização e a desregulamentação.

“Quando se joga muita luz sobre um único ponto, cria-se uma enorme área de sombra. E, às vezes, a solução está justamente na sombra. ”

Parece ser uma espécie de lugar-comum dizer que o mundo em que vivemos hoje é caótico, mas é da própria natureza das revoluções reordenar o funcionamento das coisas – e na calda dessa reorganização, segue-se sempre um período de instabilidade. O mundo em que vivemos hoje é certamente um mundo menos estável do que no passado, menos rígido, menos seguro, menos previsível, e essa instabilidade já permeia toda a nossa sociedade.

“Algumas pessoas simplesmente não querem mudar. Estar na zona de conforto dá a elas a desculpa que tudo é assim, foi assim e continuará sendo assim. ”

Nada parece sobreviver muito tempo e, as empresas, definitivamente não são exceção. O consultor Richard Foster, realizou um estudo onde analisou 208 empresas por um período de 18 anos a fim de identificar as que eram consistentemente bem-sucedidas. Destas, apenas três funcionaram durante os 18 anos. Metade delas não conseguiu sequer manter o ritmo por mais de dois anos. Um outro estudo famoso realizado pela Shell, verificou que um terço das companhias listadas entre as 500 maiores da revista Fortune em 1970 já tinha desaparecido em 1983. Já em uma outra pesquisa recente comandada por Ellen de Rooij, indica que a expectativa de vida média de uma empresa, de qualquer tamanho, medida no Japão e na maior parte da Europa, é de 12,5 anos. Isso sem falar da Internet, ou da era digital. O que se espera do futuro, é que o ciclo de vida das empresas seja cada vez menor.

Tá assustado? Pois saiba que já não é nem absolutamente certo que uma empresa deva almejar a sobrevivência – ou pelo menos não nos moldes em que foi criada. Nos projetos para obtenção de capital de investidores nos Estados Unidos, apenas para citar um exemplo, é necessário que a empresa candidata seja capaz de apontar o caminho de saída (way out) – que pode ser o aporte de mais investimentos, a abertura de capital na bolsa, a incorporação da companhia por outra, ou até mesmo seu próprio desmembramento. No dia-a-dia das empresas de hoje, o horizonte estratégico típico considerado pelos executivos, consultores e acadêmicos, passou a ser de um a dois anos, ao invés dos cinco a dez anos da década passada. Da instabilidade na relação entre empresas e empregados, então, nem se fala. Segundo alguns estudos, 95% das companhias americanas já consideram a opção de outplacement na hora da contratação.

Num mundo com tamanha instabilidade, “há um certo conforto perverso em olhar as organizações como sujeitas às correntes do caos”, dizem os consultores americanos Spitzer e Evans no livro Heads, You Win (Cara ou Coroa). Já que o futuro é caótico, os líderes se sentem absolvidos da responsabilidade de planejar. E esse “conforto perverso” é a pior atitude que uma organização pode adotar.

Tudo isso parece muito ameaçador, mas é na mesma medida muito promissor.

Há quem diga, entretanto (e não é pouca gente), que não existe revolução nenhuma, que o mundo está como sempre esteve. Jeffrey Pfeffer, professor de comportamento organizacional da Escola de Negócios de Stanford, diz que “há evidências suficientes de que o ambiente competitivo e a marcha da tecnologia foram ainda mais dinâmicos e estressantes em alguns períodos do passado”. Há ainda os que dizem que “o ritmo das mudanças não se alterou. Todos os anos houve fatos que mudaram o curso do mundo”.

Mesmo assim, algo mudou, e mudou muito. Não importa tanto saber se as inovações são construídas a partir de avanços do passado. O que interessa, é que estamos vivendo hoje sob uma nova lógica, e as empresas bem-sucedidas dos próximos anos vão ter que lidar obrigatoriamente com essa lógica. E, embora seja praticamente inquestionável que a nova economia representa um progresso, há um problema sério com ela: a falta de sincronia (o que alguns antropólogos apelidam de abismo cultural).

Este efeito pode ser facilmente sentido no mercado de trabalho. Quando uma indústria é substituída por outra, o que em geral essa nova indústria gera é mais riqueza. Se não fosse assim, a nova indústria não suplantaria a primeira – e a história humana, desde a revolução da agricultura, comprova esse raciocínio. O problema é que o trabalho nessa nova indústria será sempre de natureza diferente do anterior. Há mais oportunidades, mas, para os indivíduos moldados pela realidade antiga, a adequação é, na maioria dos casos, difícil e dolorosa. Algumas vezes até, impossível. (É o que o economista John Maynard Keynes definiu como desemprego tecnológico: quando a eficiência técnica se desenvolve num ritmo mais rápido que a capacidade da economia de encontrar novos usos para o trabalho.) E é daí que surge o chamado paradoxo do progresso. E ele é intrinsecamente bom, caso contrário não seria progresso, mas não é necessariamente bom para os seus contemporâneos.

Pois bem…o tempo corre, as tecnologias e o mundo continuam e continuarão a evoluir e, sem mudanças efetivas de nossa parte, dia desses, inadvertidamente, acordaremos taxistas…brigando inutilmente pelo direito de garantir aquilo que, infelizmente, não mais voltará atrás…o tempo.

(*) Gian Franco Rocchiccioli é Chief Strategy Officer da Pande e Vice-Presidente da ABEDESIGN (Associação Brasileira das Empresas de Design).

 

Gian Franco

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